Nerdlife | Colecionar é viver
- Julio Maziero
- 23 de fev. de 2018
- 4 min de leitura

Quem nunca, em alguma época de sua vida, teve uma coleção? Seja ela de selos, moedas, latas de cerveja, discos, brinquedos, filmes ou até mesmo de coisas mais bizarras e incomuns? O ato de colecionar faz parte da natureza humana e muitas são as pessoas que mantêm algum tipo de coleção.

Não se pode precisar a origem do colecionismo, mas sabemos que ele nasceu junto com o ser humano. Achados arqueológicos comprovaram que desde o tempo das cavernas o homem coleciona objetos e atribui a eles valor que justifica sua posse por longos períodos. E este valor pode ser afetivo, cultural, espiritual ou mesmo material. Estes homens primitivos guardavam pedras e conchas, atraídos por seus formatos e cores.

Pouca gente sabe, mas foi este hábito, algumas vezes criticado ou incompreendido, que deu origem aos museus. Durante a renascença, até o século XVI, a coleção era um privilégio dos nobres e mais abastados, que colecionavam principalmente objetos de valor que poderiam aumentar ainda mais a sua fortuna, como por exemplo, o faraó Tutancâmon, que colecionava cerâmicas finas e o rei Nabucodonosor que mantinha uma coleção de antiguidades.

Os aristocratas também guardavam praticamente de tudo um pouco: animais embalsamados, plantas, minerais, fósseis, objetos exóticos de outros países, aberrações da natureza, obras de arte e uma infinidade de artefatos. Este acervo era guardado nos chamados “gabinetes de curiosidades”, verdadeiras exposições particulares que contribuíram também para o estabelecimento da História Natural e do Enciclopedismo. A partir do século XVII, com as doações destas coleções privadas, nasceram os primeiros museus, da forma como os conhecemos. As bibliotecas, os museus e a Igreja Católica estão entre os maiores colecionadores da atualidade.

Perfil
Nos dias de hoje o ato de colecionar se democratizou, atingindo boa parte da população nas diversas classes sociais. Segundo especialistas, o perfil do colecionador moderno o coloca numa faixa etária entre 25 e 50 anos de idade, com certa independência financeira e acesso à Internet para controle, divulgação e ampliação de sua coleção. Embora o colecionismo seja um território de domínio masculino, cada vez mais mulheres começam a ingressar neste universo e, a exemplo de seus colegas, participam de convenções e exposições relacionadas à sua coleção.

Quando o assunto é coleção, não existem a melhor ou a pior, a certa ou a errada. O que existe são preferências. Tem gente que se dedica à coleção de selos, de moedas, de filmes, de discos e até mesmo de carros. Quem pode julgar o valor de cada uma delas é o colecionador. Embora sejam peças materiais, seus valores são imateriais.

E não são apenas os anônimos que se dedicam apaixonadamente às suas coleções, muitos famosos cultivam o hábito, como os atores Johnny Depp, que coleciona esqueletos de animais; Angelina Jolie, que possui uma coleção de facas; Tom Hanks, que ama máquinas de escrever; e Kiefer Sutherland, que mantém dezenas de guitarras clássicas em seu acervo. O rei do pop, Michael Jackson, entre outras excentricidades, colecionava harpas e carruagens antigas. Por aqui, no Brasil, o apresentador Otávio Mesquita, se orgulha de sua coleção de carrinhos de corrida; Luísa Mell coleciona copinhos de licor; Vera Fischer (foto acima) não esconde sua paixão pelo cinema ostentando uma bela coleção de DVDs em sua página do Instagram; e Amauri Jr. mantém uma invejável coleção de DVDs e de miniaturas de personagens variados. Isso sem falar da roqueira Rita Lee que, segundo a lenda, guardava casquinhas de machucado em uma caixinha.

O colecionador
Motivo de vários estudos entre especialistas, o colecionismo pode ser considerada uma arte acadêmica, que moldou muito das características do homem moderno como um ser ávido por novidades, interessado por aquilo que desconhece e protetor de tesouros e raridades.

O chamado homem-colecionador, por definição, é um incansável buscador de novas aquisições para seu acervo. Ele nunca está e nem será saciado. Os colecionadores compulsivos não se atêm à qualidade, história ou raridade da peça que adquirem, eles querem quantidade e, em muitos casos, acabam por adquirir inúmeras peças ao mesmo tempo. Este comportamento representa o lado ruim do hábito de colecionar. Uma coleção “saudável’ é aquela cultivada a cada dia, com peças sendo adicionadas aos poucos, artefatos que têm uma história ou mesmo representam um momento na vida do colecionador.

O colecionador e, por consequência, sua coleção são influenciados por fatores sociais, familiares, pessoais e econômicos, entre outros. Tudo isso contribui até mesmo na escolha daquilo que ele irá colecionar. Considerado por muitos como um ser alienado e egoísta, o colecionador, na verdade, a exemplo de todos os outros seres humanos, está sempre em busca da satisfação de um desejo ou necessidade, que, no seu caso, é atingida aos poucos, com cada item adicionado à coleção. A maioria deles gosta de compartilhar sua paixão com outros colecionadores, fazer novos contatos e amizades com interesses parecidos. Alguns, no entanto, preferem que ela fique no anonimato. O segredo para uma coleção prazerosa é o mesmo para todos os aspectos de uma vida saudável: evitar excessos.

Uma dica, contudo, é importante para quem quiser preservar a amizade de um colecionador: nunca peça emprestado algum item de sua coleção.
